O debate sobre a possível convocação de Neymar para a próxima Copa do Mundo divide opiniões, alimenta programas esportivos, movimenta patrocinadores e provoca paixões. Mas, tirando a emoção da mesa e olhando friamente para o futebol jogado atualmente, a pergunta precisa ser feita sem medo: o Neymar de hoje merece, de fato, uma vaga na Seleção Brasileira?
O problema é que boa parte da análise ainda está presa ao retrovisor. Muitos enxergam o Neymar do Barcelona, o craque dos dribles desconcertantes, o jogador capaz de decidir partidas gigantescas com um toque genial. Aquele atleta realmente existiu. Foi decisivo, extraordinário e, durante anos, carregou a Seleção nas costas. Mas o futebol não vive de museu. Copa do Mundo não é prêmio por serviços prestados.
O que precisa entrar em campo é o presente. E o presente de Neymar está muito distante daquele auge que encantou o planeta.
Hoje, o camisa 10 já não apresenta o mesmo vigor físico, não mantém sequência, convive constantemente com lesões e perdeu justamente aquilo que o diferenciava dos demais: o poder de desequilibrar. O Neymar atual não intimida mais grandes defesas como antes. E os números recentes mostram isso de forma clara.
Há quem sustente que, em um momento decisivo, ele ainda pode resolver uma partida para o Brasil. É uma tese compreensível, até emocional. Mas ela esbarra numa pergunta simples: se ele não consegue mais decidir regularmente partidas pelo Santos Futebol Clube como poderá fazê-lo diante das maiores potências do futebol mundial?
Copa do Mundo não é ambiente para aposta baseada em nostalgia. Não se pode construir uma convocação em cima do “talvez”, do “quem sabe”, do improvável. Ainda mais quando existem atletas vivendo momento técnico superior, mais intensos fisicamente, mais decisivos e mais comprometidos taticamente com o futebol moderno.
O futebol atual exige intensidade, recomposição, explosão, regularidade e entrega. E, infelizmente para os admiradores do craque, Neymar já não consegue reunir todos esses elementos como antes. Sua convocação, caso aconteça, terá muito mais relação com o peso do nome do que com mérito esportivo propriamente dito.
E é justamente aí que mora a grande discussão.
Porque o futebol contemporâneo deixou de ser apenas esporte. Ele virou indústria. Uma engrenagem bilionária movida por audiência, marketing, patrocinadores e interesses comerciais. Um nome como Neymar movimenta cifras, gera exposição global, vende camisa, atrai mídia e alimenta o mercado publicitário. Isso pesa. E pesa muito.
Não seria nenhuma surpresa se sua presença na lista final tivesse também esse componente extracampo. Afinal, em torno da Seleção Brasileira há muito mais do que apenas onze jogadores e uma bola rolando.
Agora, caberá a Carlo Ancelotti separar o passado da realidade. O técnico italiano terá a responsabilidade de decidir se levará um símbolo do futebol brasileiro ou um jogador efetivamente capaz de fazer diferença dentro das quatro linhas.
A camisa da Seleção sempre foi pesada demais para ser entregue apenas pela história construída. O futebol cobra o agora. E o agora de Neymar está longe daquele brilho que um dia o transformou em esperança nacional.

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