Há
quem diga que Copa do Mundo acaba no apito final. Não acaba. Ela continua por
muitos dias nas mesas dos bares, nas resenhas entre amigos, nas rodas
esportivas e, principalmente, na cabeça de quem ama futebol. Depois de
acompanhar a competição, ouvir comentaristas da imprensa esportiva nacional,
assistir análises, rever lances e observar o comportamento das seleções, chega
a hora da reflexão.
E
essa reflexão, feita por quem gosta de futebol, por quem torce, por quem já
teve a honra de presidir a Liga Desportiva de Bom Conselho, por quem por anos foi o apresentador do principal programa esportivo de rádio da cidade, leva a uma
conclusão difícil de contestar: o futebol mundial evoluiu. O Brasil,
infelizmente, ficou parado no tempo.
A
campanha brasileira foi um retrato da própria seleção. Sofrimento contra
Marrocos, obrigação cumprida diante do Haiti, vitória esperada sobre a Escócia,
aperto desnecessário contra o Japão, decidido apenas nos minutos finais, e o
inevitável desastre nas oitavas de final diante da Noruega. Uma eliminação
precoce, amarga e que entra para a lista das piores campanhas brasileiras em
Copas do Mundo.
No
papel, havia nomes. Em campo, quase nenhum futebol.
Faltou
intensidade, organização, criatividade e, acima de tudo, identidade. A Seleção
parecia um grupo reunido às pressas para cumprir tabela, sem alma, sem brilho e
sem aquele respeito que um dia impunha naturalmente aos adversários.
E
como não falar da comissão técnica?
A
contratação de Carlo Ancelotti nasceu cercada de marketing. Foi a grande aposta
da gestão de Ednaldo Rodrigues na CBF. A ideia parecia perfeita no discurso:
unir a maior seleção do planeta ao treinador mais vencedor da história dos
clubes. Uma mistura que prometia assustar o mundo antes mesmo da bola rolar.
Mas
futebol não se ganha em currículo.
Não
basta empilhar taças na Europa para entender o peso da camisa amarela. Não
basta ser campeão em clubes para compreender a complexidade de comandar uma
seleção que carrega cinco estrelas e uma cobrança que não existe em nenhum
outro lugar do planeta.
A
experiência, desta vez, virou experiência frustrada.
O
futebol apresentado diante da Noruega foi pobre, previsível e, para muitos
torcedores, doloroso de assistir. Uma seleção sem repertório, sem reação e sem
qualquer sinal de que poderia ir além.
Virando
a página do Brasil, a Copa entregou exatamente aquilo que o torcedor espera:
boas histórias.
Foi
um Mundial agradável, competitivo e marcado pela consolidação de uma realidade
que já não pode mais ser ignorada. O futebol está definitivamente globalizado.
Não existe mais adversário pequeno. Não há espaço para soberba. Hoje, qualquer
seleção organizada é capaz de enfrentar qualquer gigante de igual para igual.
A
Espanha conquistou o título com todos os méritos. Jogou o torneio inteiro com
equilíbrio, inteligência e um futebol envolvente. Na decisão, deu uma
verdadeira aula.
A
Argentina ficou com o vice. E, convenhamos, foi até longe demais. Manteve a
velha postura arrogante que a acompanha há décadas e, em momentos decisivos,
contou com circunstâncias bastante generosas. Favorecimento? Cada torcedor fará
sua própria leitura. Mas houve decisões difíceis de engolir.
A
França, mesmo sem chegar à final, talvez tenha sido a equipe mais empolgante da
competição. A Inglaterra mostrou qualidade, mas faltou coragem na semifinal.
Holanda, Alemanha e Portugal, mais uma vez, esbarraram no próprio limite e
ficaram pelo caminho.
No
fim das contas, a maior vencedora foi a própria Copa do Mundo.
Novos
talentos surgiram, jovens promessas apareceram para o cenário internacional e
velhos protagonistas confirmaram seu valor. O futebol mostrou que continua
sendo um espetáculo capaz de renovar gerações.
Enquanto
isso, o Brasil segue procurando a própria identidade.
O
próximo ciclo começa praticamente agora. Em setembro já tem Data FIFA,
amistosos, testes e novas oportunidades. Mas a impressão é de que pouco mudará.
Tudo indica que Ancelotti permanecerá no cargo.
Se
permanecer, precisará mudar radicalmente.
Porque
insistir no mesmo roteiro esperando um final diferente costuma produzir apenas
novas decepções. A Seleção precisa de oxigenação. A comissão técnica precisa de
renovação. A CBF também necessita rever seus caminhos. O futebol brasileiro não
pode continuar vivendo apenas da nostalgia das cinco estrelas.
O
torcedor brasileiro é diferente. Mal termina uma Copa e já começa a contagem
regressiva para a próxima. É um povo que sofre, reclama, promete desistir... e
quatro anos depois está novamente diante da televisão acreditando que, desta
vez, será diferente.
É
essa esperança que mantém viva a paixão nacional.
Mas
paixão também tem limite.
A
cada Mundial, o brilho da Seleção parece diminuir um pouco. A camisa amarela
continua pesada pela história, mas cada vez mais leve dentro das quatro linhas.
Agora,
resta esperar 2030.
Que
venha uma nova Copa.
E,
quem sabe, com um Brasil capaz de jogar um futebol que faça justiça à grandeza
da sua própria história.
*Por Tiago Padilha - Editor deste Blog, Radialista e Jornalista. Torcedor e Desportista!!!