A política de Bom Conselho ganhou mais um capítulo
daqueles que misturam análise, conveniência e, claro, um toque generoso de
hipocrisia. Duas decisões do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco,
divulgadas nesta semana, sacudiram os bastidores, mas cada uma com um “volume”
bem diferente, a depender de quem estava no alvo.
A primeira delas caiu como prato cheio para a
oposição. O Tribunal de Contas determinou a suspensão de um chamamento público
da Prefeitura que previa a contratação de uma organização social para gerir
serviços de saúde no município, com valor estimado em pouco mais de R$ 25
milhões. Pronto. Foi o suficiente para que alguns nomes oposicionistas
vestissem a fantasia do escândalo e saíssem às redes sociais como arautos da
moralidade.
Mas, olhando com a lupa da razão, e não com o
binóculo da conveniência, o que houve foi bem menos dramático do que tentaram
vender. A Corte de Contas identificou pontos irregulares no processo e
determinou a gestão do prefeito Dr. Edézio Ferreira que faça a correção. Traduzindo: um alerta técnico, absolutamente comum na
administração pública, para que o edital seja ajustado e republicado. Nada,
além disso. Nenhum desvio comprovado, nenhum escândalo, nenhuma manchete de
calamidade, a não ser na narrativa inflada de quem precisava de munição
política.
Aí vem o ponto curioso, para não dizer revelador.
No dia seguinte, o mesmo Tribunal de Contas trouxe
à tona outra decisão — essa, sim, com cheiro forte de problema real. O órgão
apontou irregularidades na destinação de resíduos sólidos durante gestões
anteriores em Bom Conselho. Segundo o processo, entre março de 2022 e fevereiro
de 2023, cerca de 5 mil toneladas de lixo foram despejadas em local inadequado,
gerando impactos ambientais consideráveis.
Resultado: multa individual de pouco mais de R$ 11
mil para o ex-prefeito João Lucas, além dos ex-secretários de infraestrutura
Felipe Tuna e Marlos Monteiro. Falhas classificadas como graves na condução da
política de resíduos sólidos. Um retrato nada bonito de quem hoje figura como uma
das lideranças no grupo oposicionista.
E aí? Silêncio.
Nenhum alarde. Nenhuma enxurrada de posts. Nenhum
discurso inflamado. Nenhuma indignação performática. O que era tempestade virou
brisa. O que era motivo de grito virou assunto de cochicho, quando virou.
Fica evidente o roteiro já conhecido: quando o fato
atinge o adversário, amplia-se; quando respinga nos seus, minimiza-se. É a
política do megafone seletivo. Não se trata de fiscalizar, o que é legítimo e
necessário, mas de escolher o que fiscalizar conforme a conveniência do
momento.
O problema é que esse tipo de jogo anda cada vez
mais manjado. O eleitor de Bom Conselho não é mais aquele de outros tempos, que
engolia qualquer narrativa empurrada goela abaixo. Hoje, observa, compara,
cruza informações e, principalmente, percebe quando há mais teatro do que
verdade.
No fim das contas, as duas decisões do Tribunal de
Contas dizem muito, não apenas sobre gestão pública, mas sobre o comportamento
de quem faz oposição. Uma oposição que, ao que parece, ainda insiste na velha
prática de fazer barulho por fazer, criticar por criticar, sem o mínimo
compromisso com a coerência.
E assim segue a novela política na terra de
Papacaça: com seus capítulos previsíveis, seus personagens repetidos e um
público que, cada vez mais, já sabe exatamente quando está diante de um drama
real, ou de uma encenação mal ensaiada.