A
eleição de 2026 já ganhou as ruas de Bom Conselho e, além dos tradicionais
pedidos de voto, bandeiras, adesivos e discursos de palanque, colocou sobre a
mesa uma equação política curiosa — e potencialmente perigosa — para o grupo
comandado pelo ex-prefeito e atual deputado estadual Dannilo Godoy.
Depois
de anos no PSB, Dannilo migrou recentemente para o PP e, nesta eleição, está no
palanque da governadora Raquel Lyra,
candidata à reeleição. Até aí, nada de extraordinário. Política é feita de
alianças, conveniências e, sobretudo, de cálculos. O detalhe que torna a
história mais interessante é que seu irmão, Danniel Godoy, segundo colocado na eleição municipal de 2024,
decidiu apoiar João Campos.
Também
seria perfeitamente normal se houvesse, por trás disso, uma ruptura política.
Mas não há.
E
é justamente aí que mora a ironia.
Dannilo e Danniel
estão em palanques diferentes, mas continuam no mesmo grupo político. Não houve
rompimento, não houve divórcio eleitoral, não houve aquela tradicional troca de
farpas que costuma acompanhar separações políticas. O grupo continua o mesmo:
vereadores, lideranças comunitárias, lideranças políticas e a estrutura
construída ao longo dos anos.
Mudaram
apenas os candidatos.
E
isso transforma a eleição numa verdadeira faca
de dois gumes para os Godoy.
A
pergunta que começa a circular nos bastidores é inevitável: Dannilo está, de fato, vestindo a camisa de
Raquel Lyra e pedindo votos para a governadora, ou o apoio é apenas o
necessário para atravessar 2026 e chegar inteiro à disputa de 2028?
A
resposta virá das urnas.
Se
Raquel Lyra sair majoritária e com uma votação expressiva em Bom Conselho,
Dannilo naturalmente poderá contabilizar parte do resultado. Mas não poderá
reivindicar a vitória sozinho. E aí entra um personagem que não pode ser
retirado dessa fotografia: o prefeito Dr.
Edézio Ferreira.
Edézio
é aliado de Raquel desde a eleição de 2022, quando a atual governadora disputou
pela primeira vez o Governo de Pernambuco. Portanto, caso Raquel tenha uma
votação robusta na Terra de Papacaca, o prefeito terá méritos de sobra para
colocar na conta.
Em
outras palavras: Dannilo poderá
comemorar, mas dificilmente levará o troféu inteiro para casa.
E
há outro lado da moeda.
Se
João Campos sair derrotado em Bom Conselho, especialmente ficando atrás de
Raquel, a conta também poderá chegar ao grupo Godoy. Afinal, Danniel não está
disputando uma eleição isoladamente. Seu palanque é o palanque de um grupo
político que, apesar da divisão aparente dos apoios, permanece unido.
Se
João perder, portanto, surgirá uma pergunta incômoda: se o grupo é um só, por que não conseguiu entregar uma votação
majoritária ao seu candidato?
A
política, como se sabe, adora transformar vitória em patrimônio e derrota em
explicação.
A gangorra de 2026
já aponta para 2028
O
resultado de outubro poderá funcionar como uma espécie de prévia informal da
eleição municipal de 2028.
Se
Raquel Lyra vencer em Bom Conselho,
o grupo do prefeito Edézio Ferreira tende a sair fortalecido. E Dannilo, embora
possa comemorar a vitória de sua candidata, terá de dividir os louros com o
prefeito. Será uma vitória política com assinatura coletiva — e talvez com uma
rubrica maior de Edézio.
Se
João Campos ficar em segundo, a
leitura também poderá ser dura para os Godoy: o grupo, aparentemente, não teria
conseguido transformar sua estrutura política em votos suficientes para fazer o
candidato apoiado por Danniel superar Raquel.
Mas
existe o cenário inverso.
Se
João Campos disparar e sair majoritário
em Bom Conselho, a leitura será completamente diferente. Danniel e Dannilo
terão demonstrado que, apesar de estarem em palanques distintos, o grupo Godoy
continua unido, organizado e com musculatura eleitoral.
E
aí quem poderá começar a fazer contas — e talvez perder algumas noites de sono
— será o grupo do prefeito Edézio.
Porque
uma vitória expressiva de João poderá ser interpretada como um recado
antecipado para 2028: os Godoy continuam
vivos, fortes e capazes de transferir votos.
É
por isso que a eleição de 2026, em Bom Conselho, tem uma característica
peculiar. Não está em jogo apenas quem será o mais votado para governador. Está
em jogo quem poderá sair maior ou menor
politicamente da disputa.
O déjà-vu de 2024
Há
ainda uma semelhança que merece atenção.
Na
eleição municipal de 2024, o grupo Godoy apresentou Danniel em uma embalagem
política que misturava duas mensagens. Em determinados momentos, ele era
vendido como o novo, a renovação, a inovação. Em outros, aparecia como a continuidade do projeto político iniciado
por Dannilo em 2013.
Agora,
dois anos depois, a estratégia parece ganhar uma nova roupagem: dois irmãos em
palanques diferentes, aparentemente dois caminhos, mas dentro de uma mesma
estrutura política.
A
embalagem mudou.
O grupo, não.
E
essa contradição poderá ser cobrada pelas urnas.
Bom
Conselho, portanto, vive uma eleição que mais parece uma gangorra. De um lado,
Raquel Lyra. Do outro, João Campos. No meio, um grupo político que decidiu
colocar dois irmãos em lados opostos — sem, contudo, deixar de ser o mesmo
grupo.
Se
Raquel vencer, Edézio sai fortalecido e Dannilo comemora, mas sem poder
reivindicar sozinho os dividendos da vitória.
Se
João vencer com folga, os Godoy mostram força e unidade, enquanto Edézio ganha
uma dor de cabeça antecipada para 2028.
No
fim das contas, a eleição de 2026 pode não definir a disputa de 2028, mas
certamente ajudará a desenhar seu mapa.
E,
na política, mapa desenhado cedo demais costuma provocar uma coisa curiosa: alguns começam a enxergar a estrada; outros
percebem que podem estar andando na direção errada.
Em
Bom Conselho, a pergunta agora é simples — e a resposta estará nas urnas:
quem será
majoritário na Terra de Papacaca: Raquel ou João?
A
depender do resultado, a comemoração poderá ter endereço certo. E a conta
política também.