Uma
das surpresas da eleição deste ano em Bom Conselho foi o desempenho eleitoral
do deputado estadual Doriel Barros (PT). Nos bastidores da política local, a
expectativa era de que o parlamentar ampliasse significativamente sua votação
no município, especialmente diante do reforço político que recebeu nesta
campanha. As urnas, entretanto, contaram uma história diferente: Doriel
terminou com 2.294 votos, abaixo dos 2.538 obtidos em 2022, e não conseguiu
renovar o mandato na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).
O
resultado chama a atenção não apenas pela queda numérica, mas, sobretudo, pelo
cenário político da atual disputa. Doriel entrou na campanha respaldado pelo
tradicional apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, sob a liderança de
Givaldo Cavalcante, e por importantes novidades no palanque: a vice-prefeita
Cinthia Ancelmo, dois vereadores do PT, a líder quilombola e
ex-vereadora Márcia do Angico, dentre outros. Diante desse conjunto de apoios, a leitura
predominante em diferentes círculos políticos era de que o deputado teria
condições de alcançar uma votação bem mais expressiva, com expectativas de, até
mesmo, dobrar o desempenho de quatro anos atrás.
Não
foi o que aconteceu.
Uma trajetória que
ajuda a explicar o resultado
Para
compreender o peso dessa votação, é necessário voltar no tempo e observar a
trajetória do movimento sindical na política partidária de Bom Conselho. A
história começou a ganhar contornos eleitorais mais expressivos em 2010, quando
Manoel Santos, conhecido como Manoel da Contag ou Manoel de Serra, recebeu 718
votos no município. Naquela eleição, ele foi o sétimo mais votado em Bom
Conselho e acabou eleito deputado estadual. A candidatura representou o pontapé
inicial de uma participação mais organizada do sindicato e de Givaldo
Cavalcante na disputa pelo poder político local.
Quatro
anos depois, em 2014, Manoel ampliou consideravelmente sua presença eleitoral.
Saltou para 2.358 votos em Bom Conselho, alcançou a terceira colocação entre os
mais votados e foi reeleito. O resultado consolidou o espaço do movimento
sindical no cenário político municipal e colocou Givaldo entre as lideranças
com maior capacidade de mobilização eleitoral. Manoel, entretanto, faleceu
durante o exercício do mandato.
Em
2018, Doriel Barros assumiu o protagonismo dessa representação política. Na
primeira eleição como candidato a deputado estadual, obteve 3.955 votos em Bom
Conselho, foi o segundo mais votado no município e conquistou seu primeiro
mandato. Foi uma votação expressiva, que fortaleceu a presença do PT e
confirmou a capacidade de articulação do grupo liderado por Givaldo.
Em
2022, já buscando a reeleição, Doriel sofreu a primeira queda significativa em
sua votação local. Recebeu 2.538 votos, ficando na terceira posição entre os
candidatos a deputado estadual mais votados em Bom Conselho. Apesar da redução,
conseguiu renovar o mandato.
Agora,
em 2026, o movimento de queda se repetiu. Doriel perdeu mais 244 votos em relação
à eleição anterior, fechou a disputa com 2.294 e permaneceu na terceira
colocação no município. No resultado geral, porém, não conseguiu se reeleger.
Mais apoios, menos
votos: onde está a explicação?
É
justamente nesse contraste que reside uma das principais questões políticas
deixadas pela eleição em Bom Conselho. Como explicar que uma candidatura
reforçada por novos apoios tenha registrado uma votação inferior à de 2022?
A
resposta não está necessariamente em um único fator. O resultado pode envolver
dificuldades de mobilização, mudanças no comportamento do eleitorado,
concorrência entre candidaturas, avaliação da atuação política e eventuais
problemas de articulação durante a campanha. Sem uma análise detalhada dos
números por localidade e da transferência efetiva de votos de cada grupo, seria
precipitado apontar uma causa definitiva.
Mas
há um dado político que merece atenção: apoio anunciado não se converte
automaticamente em voto. A presença de lideranças importantes no palanque
amplia a estrutura de uma candidatura, mas não garante, por si só, crescimento
eleitoral. Entre o discurso dos bastidores e a decisão individual do eleitor
existe uma distância que só as urnas conseguem medir.
E,
neste caso, a expectativa de crescimento não se confirmou.
O recado das urnas
para Givaldo e o PT
Apesar
do revés, a votação de Doriel também deixa uma mensagem que não deve ser
ignorada. Mesmo com a queda, o deputado manteve a terceira colocação entre os
mais votados para a Assembleia Legislativa em Bom Conselho. Os 2.294 votos
demonstram que o grupo sindical ainda conserva uma base eleitoral relevante,
construída ao longo de cinco eleições e de uma trajetória iniciada com Manoel
Santos.
Por
outro lado, o desempenho de 2026 impõe uma reflexão necessária. O resultado
ficou entre os quatro piores da série histórica de votações do grupo nas cinco
eleições em que o movimento sindical, sob a liderança política de Givaldo
Cavalcante, esteve diretamente envolvido. É um indicador de que a força
acumulada ao longo dos anos não deve ser tratada como patrimônio eleitoral
permanente.
Cabe
agora ao PT local, a Givaldo, ao sindicato e às lideranças que participaram da
campanha examinar os números com serenidade e responsabilidade. Onde a
articulação funcionou? Quais apoios efetivamente se traduziram em votos? O que
mudou na relação com o eleitorado? E quais erros precisam ser corrigidos para
evitar que a tendência de queda se prolongue?
São
perguntas que merecem respostas para além das justificativas habituais do
período pós-eleitoral.
Na
política, perder uma eleição ou registrar uma votação abaixo da expectativa não
significa, necessariamente, o fim de um projeto. Mas ignorar os sinais emitidos
pelas urnas pode transformar um revés pontual em um problema duradouro.
Em
Bom Conselho, a eleição de 2026 deixou esse recado. Doriel Barros perdeu votos,
não renovou o mandato e frustrou as expectativas de crescimento. Givaldo
Cavalcante, por sua vez, continua contando com uma base eleitoral importante,
mas terá de avaliar se o modelo de articulação que sustentou o grupo até aqui
ainda responde às exigências de um eleitorado em transformação.
O
desafio agora não é apenas explicar por que Doriel recebeu menos votos. É
entender por que, mesmo com mais apoios no palanque, a candidatura não
conseguiu avançar nas urnas.