A eliminação da Seleção Brasileira para a Noruega, por 2 a 0, no último domingo (5), ficará marcada como mais um dos capítulos melancólicos da história recente do nosso futebol. Não foi apenas uma derrota. Foi o retrato de um projeto que nasceu sem identidade, atravessou um ciclo de incertezas e terminou da pior forma possível: com um Brasil sem alma, sem brilho e distante da essência que um dia o transformou no país do futebol.
Do Mundial de 2022 até esta Copa, a Seleção viveu um período de completa instabilidade. Quatro treinadores passaram pelo comando técnico. Três brasileiros e, por fim, Carlo Ancelotti, contratado como o grande salvador da pátria. A aposta da então direção da CBF parecia sedutora: unir a camisa mais vencedora da história do futebol ao técnico europeu mais consagrado dos últimos tempos. No papel, uma combinação de respeito. Na prática, um casamento que nunca encontrou sintonia.
O investimento foi alto, a expectativa maior ainda. O resultado, entretanto, ficou muito abaixo do esperado. A Seleção jamais lembrou o Real Madrid multicampeão dirigido por Ancelotti. Faltou intensidade, organização, criatividade e, sobretudo, identificação com a torcida brasileira. O futebol apresentado parecia engessado, excessivamente europeu para uma equipe cuja maior virtude sempre foi a liberdade, a improvisação e a genialidade de seus jogadores.
A falta de consistência do trabalho ficou evidente também nas constantes mudanças. Foram dezenas de atletas convocados ao longo do ciclo, numa demonstração clara de que nunca houve uma base consolidada. E o mais curioso é que a espinha dorsal da equipe que disputou esta Copa era formada, em sua maioria, pelos mesmos jogadores que estiveram no Mundial de 2022. Isso, inevitavelmente, leva a uma reflexão: será que o trabalho desenvolvido por Tite merecia uma continuidade? A pergunta talvez nunca tenha resposta definitiva, mas os fatos mostram que romper um ciclo sem um projeto sólido pode custar caro.
A queda também pesa pelo adversário. É verdade que o Brasil jamais venceu a Noruega em confrontos oficiais. Mas também é verdade que a seleção norueguesa, embora em franca evolução, ainda não integra o grupo das grandes potências do futebol mundial. Ver o pentacampeão ser eliminado nas oitavas de final por uma equipe em ascensão simboliza o tamanho da crise técnica e administrativa que atravessa o futebol brasileiro.
A última vez que o Brasil havia parado nas oitavas foi em 1990, diante da então campeã mundial Argentina. Trinta e seis anos depois, a história se repete, mas com um gosto ainda mais amargo. Não apenas pelo resultado, mas pela forma como ele aconteceu: sem reação, sem repertório e sem o peso da camisa que tantas vezes intimidou adversários.
Agora, um novo ciclo precisa começar. E ele deve ser profundo. A mudança não pode ficar restrita ao banco de reservas. Ela precisa alcançar os corredores da CBF, o departamento de futebol e também o elenco. Muitos dos chamados medalhões já entregaram o que tinham para entregar. Permanecer apenas pelo nome ou pelo passado não combina com uma Seleção que precisa reencontrar seu futuro.
Se a escolha voltar a ser por um treinador estrangeiro, que seja alguém verdadeiramente inserido na realidade do futebol brasileiro. Um nome como Abel Ferreira, por exemplo, conhece o calendário, entende o jogador brasileiro, assimilou a cultura sul-americana e construiu uma trajetória vitoriosa dentro do nosso futebol. É um cenário diferente daquele vivido por Ancelotti, cuja metodologia nunca conseguiu dialogar com a essência do futebol brasileiro.
Mais do que um técnico, o Brasil precisa recuperar sua identidade. O nosso futebol sempre foi reconhecido pela criatividade, pela ousadia, pela irreverência e pela capacidade de transformar talento em espetáculo. Não faz sentido tentar copiar modelos europeus quando foi justamente o mundo que, durante décadas, tentou copiar o Brasil.
O sonho do hexa foi novamente adiado. Agora resta esperar por 2030. Mas que a próxima caminhada seja construída com planejamento, competência e respeito à história da camisa amarela. Que a CBF compreenda que tradição não vence jogo, mas ajuda a construir caminhos. E que a era “Ancelotti” pare por aqui e que o próximo comandante saiba que dirigir a Seleção Brasileira exige mais do que currículo. Exige conhecer as raízes do nosso futebol, entender o sangue quente do futebol sul-americano e devolver ao torcedor aquilo que ele mais sente falta: uma Seleção que jogue com alegria, coragem e a magia que fez do Brasil uma referência eterna no esporte mais apaixonante do planeta.

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