terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Neymar renova com o Santos, mas o recado do futebol é claro: o brilho ficou no passado.

Há anúncios que dizem muito mais pelo que revelam nas entrelinhas do que pelo fato em si. A renovação de Neymar com o Santos até o fim de 2026 é um desses casos. Vende-se o acordo como um gesto de amor ao clube que o revelou, como um reencontro com as origens, como um capítulo romântico da carreira. Tudo muito bonito, tudo muito emocionante. Mas o futebol, esse velho e impiedoso juiz, costuma ser menos sentimental e bem mais objetivo.

Porque, convenhamos, quando um jogador de pouco mais de 30 anos, que já foi tratado como joia rara do futebol mundial, vencedor da Champions League, protagonista em Copa do Mundo, apontado várias vezes entre os melhores do planeta, renova contrato com um clube brasileiro — por mais respeitável e histórico que seja — isso não é escolha estratégica. É sinal. E dos claros.

Não se trata de desmerecer o Santos. Jamais. O Santos é gigante, é templo sagrado da bola, berço de Pelé, de Pepe, de Coutinho, de Robinho, de Giovanni, do próprio Neymar. Mas o debate aqui não é institucional, é técnico. É de mercado. É de rendimento. Se Neymar ainda fosse aquele atleta decisivo, explosivo, temido, com futebol capaz de mudar o rumo de um jogo grande, ele não estaria “disponível” para o mercado nacional. Estaria sendo disputado a tapas por clubes da Inglaterra, da Espanha, da Itália, da França. Os grandes centros do futebol não costumam ignorar talento em plena forma.

E ignoraram.

Enquanto jovens brasileiros, alguns ainda em fase de consolidação, são vendidos a peso de ouro para gigantes europeus, Neymar assiste tudo de longe. Muito longe. Nem sequer entra na conversa. O mercado, que nunca foi caridoso, mas sempre foi pragmático, deu seu veredito: o Neymar de hoje já não entrega o que o Neymar de ontem entregava.

Basta olhar ao redor. Thiago Silva, mais velho, com quilometragem rodada e currículo igualmente pesado, esteve a um passo de retornar ao Milan com um contrato robusto. Não voltou por decisão técnica, não por falta de mercado. Neymar, ao contrário, não chegou nem perto de gerar esse tipo de movimento. E isso diz muito. Diz quase tudo.

O argumento da Copa de 2026 surge como última âncora. Neymar renova de olho no Mundial, dizem. Quer ritmo, quer sequência, quer protagonismo. Justo. O problema é que Copa do Mundo não se joga apenas com nome, currículo ou memória afetiva. Joga-se com intensidade, com competitividade, com entrega física e mental. E hoje, Neymar está anos-luz distante daquele jogador que fazia defesas tremerem só com a leitura da escalação.

Sua presença já não impõe respeito. Seu nome já não assusta adversários. Pelo contrário: virou incógnita. E, pior, risco. Para uma seleção brasileira que já anda cambaleante, insistir em Neymar como pilar pode ser mais um peso do que um impulso. Um contrapeso perigoso.

A renovação com o Santos, nesse contexto, não é redenção. É constatação. É o retrato fiel de uma carreira que entrou na curva descendente e que agora convive com uma realidade dura, porém inevitável: o bom futebol ficou para trás. A aposentadoria, essa velha conhecida que todo craque tenta driblar, já bate à porta de Neymar com mais insistência do que o brilho que um dia o consagrou.

No futebol, como na vida, o tempo não espera por ninguém. Nem mesmo por quem já foi rei.

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