A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que vai iniciar, de forma gradual, o desligamento de cerca de 38 mil orelhões que ainda resistem espalhados pelo Brasil. A previsão é que todos sejam retirados das ruas até 2028, encerrando oficialmente um capítulo marcante da história das comunicações no país.
Em Pernambuco, o impacto é direto em 78 municípios. Ao menos 233 aparelhos públicos ainda estão instalados no Estado e entram no cronograma de desligamento. Em Bom Conselho, restam apenas dois. Dois orelhões que, silenciosos há tempos, ainda guardam memórias de filas, fichas, cartões telefônicos e conversas apressadas — ou demoradas — que marcaram gerações.
Segundo a Anatel, a retirada será feita por etapas e atende a uma mudança clara no comportamento da população. Com a popularização do celular e a ampliação do acesso à internet móvel, os telefones públicos perderam sua função prática. Hoje, muitos estão abandonados, depredados ou simplesmente ignorados, ocupando espaço urbano sem utilidade real.
Mas a decisão não se limita ao desligamento puro e simples. A Agência afirma que a intenção é redirecionar os investimentos das empresas de telefonia para a inspeção e melhoria da rede móvel, fortalecendo a qualidade do sinal e a cobertura, especialmente em áreas onde ainda há instabilidade ou falhas no serviço.
É o fim de um símbolo. Os orelhões, tão presentes no cotidiano das cidades brasileiras, cumpriram um papel social importante, sobretudo em tempos em que telefonar de casa era privilégio de poucos. Foram ferramentas de emergência, pontes de comunicação e testemunhas anônimas de histórias pessoais e coletivas.
Em Bom Conselho, a despedida ganha contornos ainda mais emblemáticos. Os dois últimos aparelhos, sobreviventes do tempo e da tecnologia, também têm data para sair de cena. Com eles, vai embora um pedaço da paisagem urbana e da memória afetiva da cidade.
O avanço tecnológico é inevitável, mas não precisa ser frio. O adeus aos orelhões é, antes de tudo, um retrato de como o Brasil mudou — e continua mudando. Resta agora preservar a lembrança de um tempo em que uma simples ligação exigia moedas, paciência e, muitas vezes, pressa no coração.
*Na foto, o orelhão da rua Vidal de Negreiros (rua da Prefeitura), um dos aparelhos ainda existentes em Bom Conselho.

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